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Censura Livre

por Sérgio Rizzo

Perfil Sérgio Rizzo é jornalista, professor e crítico de cinema

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Alô, secretário Juca: fica, Nupa!

Por srizzo
18/10/13 15:13

“Bicicletas em São Paulo”, curta do Nupa

Essa novela todos nós conhecemos, na cultura e nas demais áreas da administração pública: sai governo, entra governo, e projetos ou programas importantes para a cidade são abruptamente interrompidos. Alguns viram história e jamais são retomados.

Torço para que isso não aconteça com o Nupa (Núcleo Paulistano de Animação), sobre o qual já falei no blog (clique aqui para ler o post). Desde o início deste ano, suas atividades foram interrompidas. Alegação dada pelo secretário municipal da Cultura, o ex-ministro Juca Ferreira: falta de verba.

Agora, o movimento “Fica Nupa” — criado para pressionar a Prefeitura em busca de uma solução — obteve a promessa de que uma nova reunião com o secretário será realizada para discutir o problema. E, eu espero, para encontrar uma forma de reiniciar as atividades.

Uma experiência bem-sucedida como a do Nupa não pode acabar dessa forma, e quando seus frutos já eram visíveis. Seria um péssimo exemplo de gestão pública. Mais um.

Publico abaixo um texto do “Fica Nupa” que apresenta o projeto e resume a situação.

* * *

O Nupa (Núcleo Paulistano de Animação) é um estúdio-escola vinculado ao CCJ (Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso) no bairro de Nova Cachoeirinha, periferia da Zona Norte de São Paulo, que está com as atividades paralisadas desde o início do ano devido à mudança de gestão da Prefeitura de São Paulo.

Quem coordena o Nupa é Céu D’ Ellia, um experiente cineasta de animação, que já trabalhou para grandes estúdios de animação, realizou diversos filmes publicitários e, desde o final de 2009, investe esforços em criar um espaço de troca de ideias e experiências para jovens de todas as classes sociais, que inclui laboratório digital equipado, oficinas, workshops, mostra de filmes e o incentivo à criação de roteiros e produção de filmes coletivos.

No Nupa, os alunos aprendiam a animar seus próprios personagens utilizando o programa de animação 2D Toon Boom Studio. Aqueles participantes que se destacavam recebiam uma bolsa-residência e a chance de continuarem evoluindo e se aperfeiçoando mais, através da aproximação de outro profissionais. Tudo isso de graça, e com muita seriedade e profissionalismo. Fato esse que possibilitou que muitos alunos conseguissem rapidamente uma oportunidade de estágio ou trabalho em estúdios de animação.

Desde 2010, o Nupa conseguiu realizar vários curtas com a participação de alunos e profissionais, sendo que dois estão em fase de finalização e três deles foram veiculados nos intervalos da programação da TV Cultura e também foram exibidos no Festival Anima Mundi: “Paulicéia Mário de Andrade”, “Bicicletas em São Paulo” e “Canta, Ti-Etê”.

“Canta, Ty-Etê”

Por conta da demora e indefinição da Secretária da Cultura sobre o futuro do Nupa, desde o início do ano foi criado o movimento “Fica Nupa” e uma petição online, como forma de pressionar um posicionamento do novo secretário para que o estúdio-escola continue na ativa e recebendo investimentos da Prefeitura.

Apesar das inúmeras tentativas de contato e da recomendação de continuidade feita pelo secretário anterior, foi só através desse movimento nas redes sociais que o Núcleo de Animação conseguiu uma aproximação com o secretário da Cultura, Juca Ferreira, que, apesar de reconhecer a importância do Nupa, num encontro com o diretor do projeto, Céu D’Ellia, alegou falta de verba para continuar investindo no projeto.

Mesmo com uma nova proposta de reduzir os custos entregue para a Secretaria da Cultura, até o presente momento nada foi decidido e nenhuma resposta foi apresentada, gerando desgaste em todos os envolvidos. Bem diferente do discurso de campanha de 2012, do então candidato a prefeito, Fernando Haddad, que, em visita ao CCJ, fez elogios ao projeto e prometeu sua continuidade e ampliação.

Os alunos e ex-alunos atuantes no movimento “Fica Nupa” continuam trabalhando na divulgação dos filmes e das assinaturas, enquanto aguardam a oportunidade de conversar com o secretário da Cultura em uma reunião prevista para acontecer em outubro. Nessa reunião serão entregues as assinaturas da petição e espera-se uma definição que não modifique abruptamente o programa.

Essa petição, que já conta com quase 5 mil assinaturas e o apoio de vários animadores e ilustradores profissionais e pessoas ligadas à animação, espera ainda chegar na meta de 8 mil assinaturas. Por isso é importante que as pessoas conheçam os filmes, assinem a petição, e principalmente ajudem na divulgação.

O projeto é apoiado por muitos admiradores da arte de animação que acreditam nessa bela forma de expressão artística sendo beneficiada pelo poder público. E torcem pela continuidade do projeto e em sua capacidade pioneira de fomentar a produção de filmes de animação de qualidade sobre a cidade de São Paulo, que, devido aos excelentes resultados obtidos, merece continuar existindo, possibilitando a chance de mais jovens terem acesso e ingressarem nesse mercado tão restrito e carente de bons profissionais.

Links e referências:

Texto sobre o fim do Nupa no blog do Céu D’ Elia

Entrevista com Céu D’ Elia no blog do Orlando Pedroso 

Trecho do documentário “Lições de Animação no Brasil”, da UnivespTV, que mostra o Nupa ainda no início (2012)

Matéria no blog do Anima Mundi

Matéria no blog Mondo Vazio

Página do Nupa no Facebook| Memes e Campanha

Canal de Videos do Nupa no VIMEO

Página do Nupa no Centro Cultural da Juventude

Petição contra a descontinuação do Nupa

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13 comentários feitos no blog

  1. Roney Freitas comentou em 21/10/13 at 12:48 am Responder

    O NUPA é um projeto cultural sofisticado, público, de amplo acesso e retorno, valendo todo o investimento necessário (como comprovado, retornava não apenas a São Paulo, se expandia ao mundo). Tive a oportunidade de conhecer e creio não existir experiência similar de escola pública de animação no Brasil em macro-ambiente, com editais, produção de filmes, debates, estudos de animação, encontros e workshops com outros realizadores, residência artística… e tudo gratuito e muito lúcido na proposta! É um modelo referência (no pouco tempo que existiu, brilhou). Esperamos que haja o reconhecimento da magnitude do NUPA, a fim de mantê-lo. Por que paralisá-lo? Não entendo.

  2. Eduardo Ramuski comentou em 21/10/13 at 8:50 am Responder

    Infelizmente a Secretaria de Cultura não entendeu a importância de manter o NUPA em atividade em São Paulo e prefere acabar com o que já existe. Bons argumentos e depoimentos de profissionais e alunos que passaram pelo núcleo, não foram suficientes para convencer o Sr. Juca de que é preciso investir na formação de bons profissionais para ter um retorno de qualidade no que é produzido. Só editais não resolve a questão. Estamos vendo mais um projeto sendo enterrado na cidade de São Paulo por falta diálogo e vontade política. Mais um …

  3. Marcelo de Carvalho Ortolani comentou em 21/10/13 at 12:32 pm Responder

    Sinceramente, a descontinuação do NUPA é claramente uma medida política. A primeira medida de uma nova gestão é destruir tudo que foi feito durante a gestão anterior. O povo parece que está se acostumando com isso. Não podemos desistir de protestar!

  4. Éder Gil comentou em 21/10/13 at 4:02 pm Responder

    Infelizmente, enquanto o NUPA fica fechado, outros artistas perdem a oportunidade de se profissionalizar. E além desses artistas, o mercado também perde com a falta de profissionais qualificados.

  5. Fábio Plumari comentou em 22/10/13 at 12:08 pm Responder

    Estamos todos orfãos, por ora. Mas ainda na luta!
    Obrigado por esse apoio Rizzo! Todo o cenário de animação do país depende dessa luta!

    Abs.

  6. Dadí comentou em 22/10/13 at 9:21 pm Responder

    Agradeço a Sérgio Rizzo pelo apoio e pela afirmação da importância do projeto que se desenvolvia em São paulo. O fechamento do NUPA é um retrocesso que torna o próprio mercado de animação menos democrático, mais excludente. A animação experimental e amadora do século passado foi trocada pela especialização, mas as escolas de animação custam tão caro quanto uma boa faculdade. Ter profissionais de renome dando aulas de graça era um privilégio. Não sabemos se teremos algo parecido de novo algum dia.

  7. Céu D´Ellia comentou em 23/10/13 at 9:23 am Responder

    O lado escola-integrativa do NUPA era um de seus aspectos bem sucedidos e talvez o mais evidente. Mas o programa não era só isso. Também fazia parte de uma ação de formação de público, cidadania, criação de acervo material e imaterial para São Paulo, elevação dos padrões técnicos e estéticos da animação brasileira, etc. As respostas da atual gestão à chamada de diálogo demonstram claramente que não entendem nem o que foi feito e menos ainda, claro, o que poderia ter sido alcançado.
    Os comentários do Secretário e do Gabinete em reunião que tive no final de Abril, assim como de um assessor que recebeu os ex-alunos há poucos dias, indicam claramente que simplesmente não sabem do que se trata a experiência do NUPA. Claro que não podemos esperar de gestores públicos que sejam especializados em todos os assuntos. Mas espera-se de um gestor alguma sabedoria para saber ouvir antes de emitir pareceres taxativos e precipitados. E não faltou tempo para fazerem essa reflexão…
    Uma pena. Perdem todos.

  8. Hermíno Pedro comentou em 23/10/13 at 5:43 pm Responder

    Sou beneficiário dos workshops (gratuitos)do NUPA e também estou em luto e em luta.

  9. Fedra de Faria comentou em 26/10/13 at 6:00 pm Responder

    A descontinuação do NUPA mostra o descaso em que esta secretaria esta tratando a cultura em São Paulo.O NUPA era um de formação e cultura que colocou alguns de seus alunos que faziam o curso gratuitamente, no mercado de trabalho , com carteira assinada.
    QUE ABSURDO QUE DESCASO DESSA SECRETARIA !!!!

  10. Paulo Fradinho comentou em 28/10/13 at 12:16 pm Responder

    Mais uma oportunidade na qual perdemos todos: Profissionais, estudantes, produtores de arte, cultura e sociedade como um todo! INACEITÁVEIS as escusas politicas, administrativas ou quaisquer outras cuja miopia, descaso e irresponsabilidade para com a produção de arte em nosso país, desdenhem da importância de mais este projeto para o Brasil! …que Lástima!

    #FICA_NUPA!

    Paulo Fradinho
    Animador / CEO – Studio Paulo Fradinho

  11. Cachoeira comentou em 08/11/13 at 7:13 pm Responder

    O NUPA era totalmente desconectado do CCJ (Centro Cultural da juventude), abrigando alunos de outras regioes, era um tipo de nucleo elitizado dentro de um centro cultural da periferia. Ou seja, utilizava-se o dinheiro de um centro cultural da periferia para um projeto alheio ao seu entorno. Se for voltar, que nao seja pro CCJ.

    • Marcelo Ortolani comentou em 10/11/13 at 10:43 am Responder

      “Cachoeira”, apesar do apelido que escolheu acho que nunca deve ter ido a sala usada pelo NUPA lá na Vila Nova Cachoeirinha. Sempre teve muita gente da região nas aulas e atividades… O Éder, O Argeu, a Joice, a Beca, a Marcela, o Rodrigo, o Digão… tantos…
      E o dinheiro para o NUPA vinha da Secretaria da Cultura de São Paulo, nenhum centavo era retirado do dinheiro reservado para o CCJ.

    • Céu D´Ellia comentou em 17/11/13 at 7:16 pm Responder

      Cachoeira, suas afirmações são caluniosas. Talvez por isso a opção por usar um pseudônimo. O NUPA era uma parceria com o CCJ. E o estúdio-escola, palestras e oficinas foram oferecidos nesse aparelho municipal em especial por uma demanda local. Foi identificado em 2009 que os assuntos de maior interesse do público frequentador do centro eram Animação e HQ. Razão pela qual aliás, durante o período em que dirigi o projeto, também colaborei para a escolha do nome de Jayme Cortez, jornalista, ilustrador, incentivador de animação e autor de quadrinhos, para batizar a Biblioteca.
      Todas as decisões tomadas foram em comum acordo com a direção do CCJ.
      A maior parte da verba dos filmes produzidos pelo NUPA foi por suplementação extra. Portanto levamos MAIS verba ao CCJ e por consequência ao bairro.
      É verdade que o projeto atraiu moradores de todos os lugares. Na média, 50 a 60% dos frequentadores eram do entorno, mas também recebíamos moradores (por ordem de grandeza) da Zona Leste, ABC, Ipiranga e outros. Um de nossos alunos replicava o que recebia em um centro no Jardim Miriam. Mas tudo isso nós consideramos dados positivos e não sei porque você acha que um centro cultural municipal deva ser um gueto restrito aos moradores locais.
      Em relação ao termo que você emprega – núcleo elitizado- não entendo exatamente o que quer dizer, mas todas as hipóteses que levantei para entendê-lo me pareceram fruto de algum tipo de preconceito seu (contra animação, contra moradores de outros bairros, contra o que você classifica como cultura ou periferia, etc). Estou enganado?

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